(O dia em que eu não subi a) Pedra do Baú – São Bento do Sapucaí – SP

Em 08.07.2016   Arquivado em Blog, Lugares

Eu até poderia ter intitulado esse post com o nome da pedra que eu de fato subi (a Ana Chata), mas isso não seria honesto. Afinal, eu fui até São Bento do Sapucaí para subir a Pedra do Baú e eu falhei. Não me orgulho disso, mas desisti faltando pouco. Já faz tempo que deveria ter escrito esse relato, pro registro ser fiel aos sentimentos. Mas antes tarde do que nunca (sempre será meu lema!).

Preciso avisar: senta que lá vem história! O post tá imenso, mas eu não poderia deixar nada de fora. Além de querer deixar registrado tudo isso, acho que é muito válido como informação para quem planeja fazer essa atividade.

Além de ter textão, esse post não terá muitas fotos. Eu até tirei, mas não ficaram boas. 🙁

Informação Técnica: fizemos o percurso da Face Sul. Há dois lados para subir (e descer): a Face Sul e a Face Norte. O panfleto orienta a subida por um lado e a descida por outro. Há relatos de que a Face Sul tenha uma dificuldade menor com relação à Face Norte.

Já tinha muito tempo que eu queria conhecer a Pedra do Baú. Eu nem fazia ideia de como era, mas queria ir. Então, no começo do ano eu comecei a agitar uma amiga minha que adora trilhas, para irmos juntas. Desde que comecei a pesquisar e vi o que realmente enfrentaríamos, eu adorava deixar claro que estava proibido para qualquer pessoa envolvida na atividade desistir. Explico: a subida é quase uma escalada. Tem umas escadas de ferro chumbadas nas pedras e você é sempre orientado, pelos meios oficiais, a usar equipamento de proteção – cadeirinha para escalada e mosquetões.

Só que eu sou A corajosa. A fodástica. A incrívelmente habilidosa. Então, óbvio que eu também achei desnecessário usar a bendita cadeirinha. Um monte de gente sobe sem, porque é que EU precisaria?

Então fomos. O plano era sairmos bem cedo daqui de São José dos Campos, chegarmos até umas 8 AM lá onde inicia a trilha (começa por uma trilha), subirmos, descermos e almoçarmos no restaurante que tem lá embaixo. Nada disso aconteceu.

Essa minha amiga, junto com um amigo dela – que já virou nosso amigo também! – vieram de Ilhabela no dia anterior da subida. Chegaram aqui bem tarde e ainda saímos para comer. Comemos, conversamos, ficamos matando as saudades… Fomos dormir lá pelas 4 da manhã! Claro que não conseguimos sair daqui cedo como planejamos. Saímos bem mais tarde, lá pelas 10 da manhã. E é bem mais longe do que imaginávamos. Dá umas boas duas horas saindo daqui de São José (e eu jurava que era a mesma distância que até Campos do Jordão, que leva no máximo uma hora). Juro que comecei até a me desesperar. É quase em Minas – na verdade em um pedaço do caminho chegamos a sair de SP e entrar em MG, para então voltarmos à SP – sim, é confuso.

Comemos umas besteiras de café da manhã e levamos mochilas pequenas com barrinhas de cereal, um pouco de água (duas garrafinhas de 500 ml para os quatro! Não queríamos carregar peso “desnecessário”) e umas mexericas (pois é! haha). A sinalização por lá é bem confusa. Chegamos tarde, não paramos no restaurante onde eu queria parar, mas sim no estacionamento da trilha oficial, onde é tudo também confuso, pegamos trilha errada, nos estressamos… Enfim, tava tudo errado! Começamos a trilha e acho que já passava das 13h.

Lá fomos nós. A trilha leva a três destinos: à Pedra do Bauzinho, Pedra do Baú e Ana Chata. Cada uma tem um nível de dificuldade. O bauzinho é o mais leve, com meia hora de trilha, sem via ferrata (as escadas de ferro presas às pedras) e é indicada para todos os públicos. Já a Pedra do Baú e Ana Chata tem um nível de dificuldade maior e as tão esperadas (até então!) escadinhas.

Nem cogitamos a visita ao bauzinho, pois já estava tarde. Fomos direto pela trilha que levava ao Baú. E fomos… fomos… fomos… A trilha é longa. Quando o panfleto informou entre três e quatro horas entre ida e volta, eu já calculei que levaríamos a metade do tempo (A diferentona, lembram né). Mas não. A estimativa é realista. Agora, imagina isso sem ter comido ou dormido direito. Então. Foi pior.

Não quero desanimar ninguém. Muito pelo contrário! Só que é válido deixar a minha impressão de que todos os lugares onde pesquisei não foram claros quanto ao nível de habilidade que a trilha realmente demanda. Você não precisa ser um atleta e nem uma pessoa expert em trilhas. O caminho é bem tranquilo e não tem que desbravar nenhuma mata – isso já está pronto. Mas tem muita subida e é uma trilha longa, então o seu condicionamento físico tem que estar em dia, você deve estar bem disposto e levar pelo menos água o suficiente.

Os nossos amigos de Ilhabela são “trilheiros” e atléticos, o Arthur e eu não somos! (haha) Mas a maior dificuldade foi mesmo a escassez de água. Racionamos o único litro que levamos e não foi fácil – especialmente na volta!

Mas ok. Ainda falarei um pouco mais sobre isso daqui a pouco. Vamos à realidade cruel e motivo da inconclusão da missão.

Fizemos a trilha. A fome e a a sede ainda estavam sob controle. Enfim chegamos ao pé da subida. Faltava pouco para alcançarmos o topo da Pedra do Baú!!! As tão aguardadas (repito: até então) escadinhas tinham começado. Que alegria! Que satisfação!
Começamos a subir.

Os ferrinhos são realmente muito bem presos às pedras. Parece que nasceram ali! Não resta nenhuma dúvida de que permanecerão firmes e fortes. Então as primeiras escadinhas foram até fortalecedoras da confiança. Até que chegamos a uma escada bem alta e essa era a 90°, diferente das que já tínhamos subido, que eram bem mais inclinadas e curtas. Lá embaixo dessa escada minha amiga já começou a falar que não subiria. Eu fui taxativa: VAI SUBIR SIM! E ela subiu, reclamou um pouco, mas foi até lá em cima e ficou tudo bem. Então eu fui subir, e o Arthur logo atrás.

Subi uns 10 degraus, olhei pra baixo e vi que estava bem alto. Realmente alto. Além do pequeno pedaço de terra, de onde partimos, tinham muitos mais metros de puro e simples abismo. Preciso ressaltar que eu nunca tive problemas com altura. Em incontáveis situações eu fui a única pessoa em um grupo que estava confortável com alguma situação de risco de queda de uma grande altura.

Essa é a escada que me fez desistir. Pessoalmente é muito mais assustadora, eu juro! (a foto tá péssima, mas eu tinha que mostrar essa bendita escada, né?)

Eu costumo ser sempre a mais radicalzona. Lembram que eu falei que sou A destruidora? Então. Tudo isso caiu por terra naquele momento. E o meu medo era de que EU caísse também. Eu não estava nem na metade dessa escada e eu já tinha tomado a decisão. Eu não ia continuar. O Arthur estava logo abaixo de mim. Ele sim tem medo assumido de altura. Ele que nunca vai comigo aos brinquedos dos parques de diversão. Falei pra ele que não ia continuar. Nossos amigos já tinham terminado a subida dessa escada. Ele falou: termina de subir essa, vai dar tudo certo!

Eu estava com vertigem (e isso era novo!) e estava gelada de tanto medo. Cada degrau que subi foi lento, cheio de cuidado e pavor. Se eu errasse, cairia.

Lembram da cadeirinha de proteção? Era tudo o que eu mais queria naquele momento.

Terminamos de subir a escada e encontramos duas moças que haviam desistido naquele mesmo ponto. E elas estavam com as benditas cadeirinhas, mosquetões e capacete. Tudo certinho. Estavam esperando os maridos, que continuaram o percurso. E avisaram que tinham mais três escadas: uma logo na nossa frente, uma próxima que era bem assustadora (mais ainda do que a que havíamos acabado de subir) e a última, que concluiria a subida.

Foram os momentos de maior angústia, juro. Eu estava ali, pronta pra desistir. Aí soube que faltava tão pouco, mas ao mesmo tempo ainda teria um desafio maior do que o que acabara de enfrentar. Não foi fácil. O grupo todo estava dividido. O Arthur queria descer, com razão. Eu também queria descer, mas ao mesmo tempo eu queria chegar ao fim. A Letícia, minha amiga, queria continuar, apesar do medo. O Waguinho – nosso novo amigo – declarou que o que a gente decidisse ele acompanharia – e ele era o único claramente confortável naquela situação.

Como já contei lá no começo, desistimos. Acho que o meu maior remorso é que a Letícia e o Waguinho com certeza teriam terminado se não tivéssemos desistido. Mas eles quiseram nos acompanhar.

A descida por essa escada monstruosa foi ainda pior. Logo no topo ela tem uma passagem entre a escada de 90° e uma outra inclinada, que é a pior parte! Eu realmente achei que fosse morrer. Eu estava MESMO em pânico!
Mas descemos.

Lá no pé da subida, onde eu estava pronta para voltar, sem nenhuma história feliz para contar, a Letícia e o Waguinho falaram que continuariam a trilha até a Ana Chata. Então lá fomos nós! Preciso realmente deixar a minha gratidão registrada aqui. Eu estava pronta para voltar, com o rabinho entre as pernas, com apenas frustração dentro de mim. Mas graças aos nossos amigos nós ainda conseguimos subir em alguma pedra! haha

A trilha até a Ana Chata é mais ou menos mais um terço da trilha até o Baú. Nesse momento a fome e a sede já estavam bem mais acentuadas, assim como o cansaço. Mas prosseguimos.

Essa trilha ainda tem um pouco de via ferrata, mas nada tão dramático, foi muito divertido, isso sim. Passamos por dentro de uma caverna, nos escoramos em um pára peito, também de ferro.. E foi tudo emocionante na medida certa! Chegamos à Ana Chata, apreciamos a vista maravilhosa – tiramos fotos, claro! – e então descemos quando o sol já estava começando a baixar. Que lugar maravilhoso!

Esses somos nós muito felizes, depois de conseguir subir em alguma pedra! haha

A volta toda foi realmente tortuosa. Levamos umas duas horas para voltar, a sede e a fome foram absurdas e junto com elas a exaustão, claro. Teve muita subida, algumas extremamente íngremes. Em vários momentos encontramos pessoas tão ou mais abaladas do que nós, tanto na subida à pedra quanto na trilha. Na volta encontramos uma família que estava ainda menos preparados do que nós estávamos. A adolescente que estava com eles chegou a ter uma crise de choro de tão exausta – e ainda estavam na metade do caminho. Juro que não foi frescura. A trilha é bem longa e é preciso estar preparado para isso.

Terminamos já no crepúsculo, passava das 17h. Eu estava com tanta fome e sede! Lá no estacionamento tem uma lanchonete (importante ressaltar que não aceitam cartão!!!) e eu bebi duas garrafinhas de água e ainda um caldo de cana de 500 ml! Deixamos para comer na cidade, mas era um horário terrível, não tinha nada aberto! Rodamos muito até encontrarmos um restaurante – que eu não faço ideia de qual era o nome – onde comemos as melhores pizza e batata frita que já comi na vida – sério, eu acho que nunca senti tanta fome!

Voltamos pra casa cansados mas muito felizes apesar de tudo. Com a promessa de voltarmos com a bendita cadeirinha – e mais condicionamento físico, por favor! – e subirmos a Pedra do Baú!

  • Carlos André

    Em 08.07.2016

    Oi Camila, sou de Belo Horizonte e tenho 52 anos de idade e subi a Pedra do Baú sem noção do que ia enfrentar, estimulado pela minha mulher e minha filha de 20 anos. Fiquei profundamente arrependido, mas consegui ir até o topo. Minha filha mais nova, que tinha uns 16 anos e tb conseguiu, chegou a chorar lá em cima, sabendo que ia ter que descer. Fiquei com dores musculares e tive pesadelo à noite. Mas ficaram as fotos, uma vista espetacular. Minha solidariedade. Vc tem razão.

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    Camila Martins

    Em 08.07.2016

    Carlos,
    Primeiramente, desculpa pela demora em te responder. Faz tempo que li seu comentário mas só agora consegui vir responde-lo.
    Na época lembro até que mostrei pro meu marido!
    Parabéns pela subida. Não é fácil! É uma conquista e tanto!
    Só de lembrar de como me senti para descer a escada que me fez desistir já consigo sentir o que levou sua filha às lágrimas. É desesperador na hora. Mas depois viram boas histórias, né?
    Acho que a dificuldade que nós sentimos deveria ser mais disseminada. Ouvi muitas pessoas falando que era uma subida muito fácil e tranquila e para pessoas que não estão acostumadas (como nós e como a maioria das pessoas, na verdade) não é bem assim na prática.
    Um grande abraço.

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